quarta-feira, setembro 07, 2005

?h??min.- Ficções




Na papelaria Ficções, já não existia nenhum exemplar de Baudelaire, tinham-se esgotado há muito e o stock ficara por repor. Desiludido, o Inspector regressa a casa com a impressão de que nem os livros lhe querem dispor o tempo de uma breve conversa.

As tardes azuis da sua época lírica, a da infância, eram passadas em sua casa na companhia do pai e dos seus primos que o visitavam todas as tardes, depois das aulas de canto e de piano. Lá, escondiam-se da criada entre os lençóis brancos do estendal que estalavam à passagem do vento. Esse era o cheiro de que não se queriam esquecer nunca - a brancura.

À saída da Papelaria, estava Baudelaire a escrever um verso na parede da Fonte do Suspiro: “Embriaga-te com a brancura / embriaga-te na cama da criada”. O Inspector abrandou o passo e esfregou os olhos, estava cansado e precisava de descansar a mente.

Depois das tardes alegres com os primos, recolhia-se no quarto e percorria as prateleiras da pequena biblioteca com um olhar fugaz, e ficava a criar histórias que cruzavam as personagens dos seus livros preferidos noutros imaginários.
Durante a noite, o seu pai Sr. Francis Haze, ficava a rever ou a traduzir romances policiais, imprimindo vigorosamente no papel branco as letras metálicas da máquina de escrever. O Inspector tinha-se habituado a adormecer com aquele som na cabeça. até ao dia em que o som se tornou imagem. O barulho das varetas no papel podiam ser traduzidas nas palavras que mais desejasse, descodificando pelo ar novas frases. A partir desse momento, o Inspector deixou de conseguir adormecer ao som das letras do seu pai, e começou a escrever poemas, com as palavras que o barulho lhe induzia. Escreveu brilhantes poemas para a idade. Porém, nos meses que se seguiram à escrita dos primeiros poemas, o seu pai deixou de receber livros para traduzir e rever, a Editora Aprumo para a qual trabalhava, tinha aberto falência. A máquina de escrever foi arrumada no sótão, e as palavras deixaram de bailar pela casa. Nesse imenso silêncio, caiu no Inspector um imenso manto de neve que cobriu no seu pensamento todas as palavras possíveis.
Pouco tempo depois, descobriu que o dicionário seria um bom substituto da sua fonte de inspiração. Primeiro começou por abri-lo aleatoriamente escolhendo as três palavras que tivessem a melodia mais bonita. Ao repetir o processo, umas boas dezenas de vezes, constatou que metade das palavras escolhidas eram nomes de peixes. E de facto, os dicionários estão repletos de nomes de peixes. Julgou por isso que seria uma classe digna de registo. Dedicou-lhes a sua primeira ode. Aos peixes.
Uma frase repetiu-se posteriormente em todos os poemas: “os peixes são a paisagem do meu sono” ou com a variação “…do meu sonho”. O Sr. Haze, ao deparar-se casualmente com um dos poemas do filho comprou-lhe um aquário gigante, no seu parecer, à altura da grandiosidade da sua destreza poética. Como todos os poetas têm períodos específicos na sua obra, o Inspector, embora criança, tinha encerrado o seu primeiro período: o aquático. Foi marcado pela entrada do aquário em sua casa, e pelo facto, de os peixes deixarem de ser “a paisagem dos seus sonhos” para se transformarem na paisagem da sala-de-estar.
Em breve, iniciou um novo período “o dos vínculos com o silêncio da noite”, marcado pela morte de um dos seus primos. O Inspector deixou de sair à rua para brincar, ficando fechado em casa a olhar para o aquário. Um dia entornou lentamente detergente na água e os peixes morreram...
Iniciou o seu último período poético, que o acompanharia até ao final da adolescência e até à entrada na Academia. Foi a fase do “deleite” e do "hedonismo" que passaram a fazer parte da sua escrita obsessiva pelo prazer e pela voluptuosidade. Chegou a escrever vários cadernos com poemas que destinava publicar na pequena Editora que, entretanto, o seu pai fundara…

Nisto pensava o Inspector antes de adormecer, ao som dos pingos da torneira mal-fechada. Não tinha sido descuido, era apenas um velho hábito de adormecer ao som de um baque ritmado. Recordou-se onde guardara os seus velhos cadernos de poesia nunca editados. Abriu a última página de um dos cadernos. Havia uma pequena nota que dizia: “Ler Baudelaire”. Parecia que a sua adolescência lhe enviara uma mensagem para o seu presente. Talvez Baudelaire tivesse alguma coisa para lhe dizer!

- Amanhã irei à livraria Ficções comprar a sua obra completa!- disse para si mesmo, o Inspector.

quinta-feira, julho 14, 2005

?h??min.- Loja de Brinquedos


(…) Por vezes penso que a sociedade não chocou comigo, que a Cultura são nuvens que atravesso sem as sentir. Poderei já ter lido espirais de bibliotecas, mas de todas as folhas que em mim caem, não há uma que arda e me queime a consciência. Também a música me parece mínima, sussurrada ou tremida, suspeito que nenhuma sinfonia soube tocar naquilo que realmente sou. A Cultura são as gotas de chuva que deslizam na minha gabardina, sem que por isso me molhe. É meu hábito tanto descrédito por tudo.
Estou jantando neste restaurante, na Travessa da Insónia, sem perceber o porquê do choro da rapariga que me serve. Perdeu o seu filho antes de o ver nascer, ainda sem nome, chamou-lhe seu “querido”. Esvaziou o perfume que a sua juventude lhe prometera. Desejei ser eu a morrer naquela barriga. Ter o afastamento necessário das coisas para as compreender. Ter alguém a servir à mesa de um restaurante e a chorar pela minha perda.
Levantou-me o prato e dirigiu-se ao balcão, não sem antes, se espantar com a minha cara esbranquiçada nos seus olhos desalmados. Saí do restaurante agoniado com uma impressão obsoleta de existência.
Já à vinda para casa e, ainda na Rua dos Ulmeiros, parei de frente a um grande mostruário iluminado de uma loja de brinquedos. Soavam pequenas cançonetas vindas de bonecos e palhaços de tez vermelha. Foi a primeira vez que me senti assim tão confortado, esperei que a melodia acabasse para voltar ao meu afastado quarto. Nesses instantes senti-me herói, capaz de criar em pensamento um mundo mais justo no espaço intermédio da luz deste candeeiro até à do próximo. Depois a melodia acabou, e um arrepio frio se apoderou de mim. A noite tinha caído rapidamente e o céu enchera-se de nuvens incertas. (…)
apontamentos de Joaquim GilVaz,
lembrados pelo Inspector ao subir a ladeira de sua casa

quinta-feira, julho 07, 2005

22h16min.- Analepse



O brando ondular das águas do cais, é escurecido pela sombra do homem que o observa. Existirá sempre no mundo alguém que repara nos pequenos acontecimentos naturais e artificias da natureza das coisas, para que os possa relatar e talvez escrever. Mesmo que os veja apenas enquanto paisagens interiores, sentirá o propósito das coisas e especulará o seu sentido num acto espelhado. Assim está o Inspector, reflectindo a sua quietude no branco ondular das águas escurecidas. Tem em si um vasto silêncio que não anula a enxurrada de pensamentos que o trespassam -.Kants, Platões, Hegels – todos reunidos num passeio à beira rio, discutindo o que vai na cabeça do Inspector.
Na continuidade, uma palavra persistia – a prudência. O encontro terminara. O Inspector tinha obtido novas pistas e direcções a tomar para resolver o mistério da morte do Sr. Joaquim. No entanto, não se movera do local. Existia o perigo de um passo em falso, do apagar de uma sensação estranha que golpeava a sua sensibilidade. Um brilho ficou marcado no seu olhar, após a conversa com o remetente da carta que o fez chegar até ali, à Rua da Conjectura.

…entregou-lhe numa folha de papel amarela, a escrita de uma sigla tremida: S.E.D.I. Seria o pano de fundo para a morte do Sr. Joaquim, um assassinato planeado por uma organização desconhecida…Esta sigla foi descoberta pelo próprio Sr. Joaquim que a encontrava invariavelmente escrita no bilhete do seu autocarro.
O Inspector dobrou a folha, agradecendo a informação com um gesto descaído.
- Poderei saber o seu nome?
-Maria Madrugada. - respondeu.

segunda-feira, junho 20, 2005

21h29min.- Interlúdio



Ponto de Situação:

São 21h e 29m o Inspector caminha sobre a calçada que desemboca no Largo de Apolo, cuja estátua surpreende pela palidez e ar de quem não se vê digno de injustiças. O encontro foi marcado para as 22h. na Rua da Conjectura, depois da restauração perto do cais, a quinze minutos do Largo. Os sapatos do Inspector brilham ao toque da lua na gordura de uma segunda camada de graxa, dada enquanto na rádio anunciavam chuva para o dia seguinte. O Inspector fecha a gabardina, e passa a mão pelo cabelo rude, lembra-se do punhado de cabelos brancos que viu no espelho antes de sair. Tem medo de envelhecer, está sozinho. Passou o Largo, a aragem do cais bate-lhe de frente, provocando-lhe uma náusea física de enjoou, ou uma abstracta de quando se tem a noção de existência por fluxos, não a sabe distinguir. Veio-lhe à cabeça o nome de Jean-Paul Sartre, seria o existencialismo apenas e só uma forma de humanismo? Não importa. Está na Rua da Conjectura.

sábado, junho 18, 2005

11h32min.- O carteiro de Ernest Heminghay

Há um vazio que me empata a vida com os outros. Só então, possuo respostas ficcionadas, tal como o punho rendado da menina inglesa que se senta na lateralidade do meu pensamento, é um resposta de não realidade aos meus sentidos. Um acessório. Vazio, se não quando estético se despido. Esses são os meus pensamentos mais belos, aqueles que se desapegam de mim e servem de decor ao meu encosto com a vida.
Cada um tem uma estética simétrica à sua realidade. Apenas conto a métrica das minhas palavras quando estou só – é só mais uma forma estética. Uma contemplação permanente de uma solidão requintada. Crio-me esteticamente pela ausência do mundo em tudo por onde passo…
[Nasce o poema.]

Apontamento de Sr. Joaquim, lido pelo Inspector.

Sim, era aquela expressão infantil de Ernest Heminghay à entrada do ringue de boxe. Quem se deparou com ela, foi o jovem estagiário que distribui o correio pelos diferentes gabinetes do departamento de homicídios. Estava estampada no rosto do Inspector, e fez recuar o pálido novato. Passado a surpresa inicial, o estafeta aproximou-se do Inspector, que se mantinha inerte no mesmo rosto, deixando-lhe alguns envelopes na secretária e retirando-se de costas para a porta, absorto ao ar indecifrável. Mais tarde, comentaria o sucedido com alguém do departamento. Dar-lhe-iam como resposta que o Inspector parece feito de um pesado mármore – algo de inerte e distante, com vagas impressões de vida, mas que a ignora por todo o seu corpo. È certo que estas não foram as palavras usadas, mas em sorte serão os pensamentos de quem apenas diz: O Inspector endoideceu.

Houve um relance de olhar que caiu no topo da secretária. Em passagem dissipavam-se emoções alheias que rompiam no concreto do mundo. Entrou na realidade pelo olhar de um relatório criminal por preencher; na esfera da caneta oferecida no último rasgo melancólico do funcionário do Banco Nacional; no relógio de pulso que se avariou às doze horas e quarenta e dois minutos; no tinteiro azul; no livro do enfático escritor; nas cartas irreconhecíveis.

Heminghay caiu ao tapete. Esqueceu-se em que tinha pensado nos últimos instantes, lembrava-se vagamente de qualquer presença a atravessar o seu gabinete. Deduziu que tivesse sido o estafeta, a avaliar pelas quatro cartas que tinha no topo da secretária.
Seria uma correspondência banal de pareceres, convocações e comícios, se não fosse o pequeno envelope sem remetente, onde apenas se lia: para o Inspector.


Sinto que trago dentro de mim a imitação de uma hipótese, o cálculo de uma certeza subjectiva, uma invenção de uma realidade inexistente - quando de olhos abertos. Conheci o Sr. Joaquim. Tudo o que tenho para si é uma hipótese da sua morte. Uma impressão mínima e ruidosa.

Rua da Conjectura, 22h.
M.M.

domingo, maio 01, 2005

11h16min.- o murmúrio

Parcerias. Do mundo salta esta palavra. Em trocas, respostas, dependências e asilos. Como o grande latifúndio que de nós recebe o sangue viscoso em gotas definhadas, para fazer brotar a secura de uma azinheira.

Dos corredores do departamento de homicídios saltam outras palavras, murmúrios, apertos de mau olhar e humores aquosos que se cristalizam num só homem: o Inspector.
Dizem que se tornou apático e um incompetente da pior espécie, não sabe que rumo tomar num homicídio tão banal como o do Sr. Joaquim. Dizem que anda a viver a vida de outra pessoa. A de um morto. Alguém que não a reclamará. Chamam-no de cobarde, se ao pensamento déssemos voz. Cumprimentam-no com simpatia, por vezes até felicidade. Sabem que o seu fracasso será o trono de quem o cobiça. Falarei um pouco sobre isso:

O Inspector desde cedo formou a convicção de exercer a referida profissão, tal aconteceu pelo seu gosto exacerbado por romances dedutivos, diria que, desde os seus 9 anos. De facto, este gosto não foi espontâneo. Cresceu dissimuladamente pelas conversas propositadas com seu pai – Sr. Francis Haze, natural de Londres e tradutor. O Sr. Haze sempre desejou para seu filho a aventura que lhe tinha escorrido nas folhas dos livros que traduzia; dado ter desenvolvido estranhas fobias sociais devido a uma educação inglesa obsoleta, nunca correu riscos na vida. E assim morreu, sem vincos na cara. O Inspector ainda novo e por formar, pouco possuía a que recorrer. Apenas um mundo fantasioso e policial que o pai lhe delegou em cada livro traduzido.

Mais tarde tornou-se um verdadeiro inspector, como aqueles que lia nos livros do pai. A dedução tinha sido sempre as suas pernas e a astúcia os braços - mas desta vez, havia uma morte indecifrável… um crime perfeito. O Sr. Joaquim morreu e nenhuma pista foi recolhida. Medos insondáveis começaram a desabrochar: Estarei a cegar internamente no mundo Joaquim? Neste momento serei o eu, ou o ele? Em nenhum dos romances que li, o inspector se apaixonaria pela vida do morto. Apenas num! Mas nesse o inspector acaba por morrer também…


- Um inspector deve fazer morrer as pessoas, somos como uma corrente estreita do leito de um rio. Desgastamos a memória dos mortos nos vivos e, inserimo-los num arquivo por ordem alfabética. Caso encerrado. - comentavam em murmúrio os colegas do Inspector.

O Inspector estava a passar pelo corredor nessa altura. Vinha disfarçadamente atento à conversa dos seus colegas, enquanto olhava fixamente a lâmpada trémula no final do corredor perto da porta de persianas do seu gabinete:

- Julgam-se inteiramente vivos para fazerem esquecer, o que quer que seja? Um dia, uma azinheira secará nos vossos pensamentos; sentir-se-ão dependentes de tudo a que atribuem à vossa acção. Estarão num asilo, rodeados de todas as respostas, mas sem coordenadas para uma interrogação. Um inspector tal como tudo resto, vive na parceria com o inexistente, com a busca do que julgamos talvez ser possível existir. Somente semi-vivos, hoje trago comigo metade da humanidade inexistente, nela está o Sr. Joaquim, e nele estou eu. É uma parceria demasiado simples, para se explicar.

Teria dito o Inspector se ao pensamento déssemos voz.

sexta-feira, abril 01, 2005

?h??min.- coisas verdadeiras


(...) Dei por mim parado na estação de comboios, perto de uma poça de água onde me via reflectido. Em seguida acordei estático, por momentos incógnitos, de frente à Lavandaria Realeza, preso a um padrão de inércia e esquecimento de mim mesmo. Tenho adormecido de dia, em plena rua, nos cumprimentos de boa tarde, nos passeios pelas ruas da Baixa, e em tudo que medeia o dormir e o acordar.
Entre as poucas distracções que a cidade me oferece, não existe nenhuma outra como a de esperar no topo do terreiro, pelas embarcações que rompem na foz. Trazem rente ao fumo canções de tom surdo e abafado de quem parte e de quem defunto vê partir. Entre a amálgama humana que desce do último paquete, distingo o Dr. Madureira – homem de várias palavras. Um aspirado a filósofo com formação em medicina. Acomodado à inteligência que o pai lhe atribuiu com uma conversa com o Reitor, para que colocasse o filho nos estudos da saúde, passou a intrometer-se em todos os círculos de intimidade filosófica. Editou a magnânime obra: "A escola Romântica e a identidade do eu e do não eu". Da escola romântica derivou-se a exaltação e, segundo Novalis, o romantismo "é dar ao quotidiano um sentido elevado, ao conhecido o prestígio do que se desconhece". Ora o estimado Dr. Madureira forjou uma verdade subjectiva romântica a um discurso fisiológico do coração, e com ele criticou todos os poetas vivos e não-vivos de colocarem este órgão como o centro de todos os sentimentos e dores sentidas. Mais tarde, o sentido da superfície metafórica do coração, aflorou-lhe à mente por uma carta sem remetente que lhe chegou às mãos...
A sua obra foi lida e aplaudida entre os intelectuais disponíveis. Para mim, foi um conforto sabê-lo, pois gozei por tudo o que não disseram e pela sua ingenuidade teórica.
A "identidade do eu e do não eu" é um sussurro de surpresa triste, uma verdade passageira necessária aos outros, enquanto durmo no relento destas ideias - no topo do terreiro, à espera do paquete que me emaranhará um sonho. (...)

cadernos de Joaquim

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

22h43min.- ortografia da emoção


Segui durante as últimas semanas, a sombra de todos os percursos de Joaquim em vida. Entrei na mesma pastelaria na rua do Inefável, subi as mesmas escadas para apanhar o mesmo autocarro, disse bom dia e boa tarde às mesmas pessoas; e em todas encontrei uma perda banal por um homem que não souberam conhecer. Joaquim passou pela vida como aquele vento que bate na cara do viajante e lhe promete aventura, mas que apenas sopra solidão. No meio dos seus livros e apontamentos, encontro descrições e regras de como viver em sociedade sem que nela tenhamos de viver. É uma condição estranha que ainda não consegui descortinar por completo. Preciso da sociedade em quase todos os termos da minha existência, mas para Joaquim a negação baseava-se na entrega absoluta à sociedade. As suas rotinas, os pequenos diálogos estudados que manobrava com os cidadãos da sua rua, o seu emprego como porteiro no Elevador de Santa Injusta, os seus impostos em dia e, a sua camisa criteriosamente engomada, compunham na sua vida uma invisibilidade majestosa que lhe permitia subverter o mundo exterior às suas canções interiores. Compreendi este facto, ao ler um pequeno trecho de um apontamento seu intitulado "Ortografia da Emoção":


(…) De certo, que terei de aguardar que o relógio marque a meia hora para me cruzar com a Sra. Mercedes, no Largo da Fonte, enquanto executa o seu diário passeio pelas lojas da Baixa. Sairei de rompante da travessa perpendicular e seguirei o mostruário dos seus paços até ao final da rua. Por fim, voltar-se-á para trás quando passarmos a loja dos relógios antigos, olhará para mim como sempre faz nos dias em que não me sinto verdadeiramente real; apenas lhe direi -bom dia. Os seus olhos fartos brilharão e uma imperfeita ruga formar-se-á na base do seu nariz, enquanto sorri. Prossegue o seu passeio e esquece-me de novo, como sempre faz. Em mim, que fui esquecido, diluiu-se o sentimento de não existência pela ruga imperfeita na base do seu nariz. E regresso a casa com o alento de fazer parte da sua paisagem quotidiana. Habituo-os à minha presença para que de mim se possam esquecer, enquanto eu construo-o as suas rotinas e demarco as suas pequenas e imperfeitas rugas que, tão prazer dá à minha existência. (…)

terça-feira, fevereiro 15, 2005

16h36min.- os repetidos passos do quotidiano

Relatório criminal

Decidi reconstruir a vida de Joaquim, seguindo os seus repetidos passos do quotidiano. Dirigi-me primeiramente para barbearia que Joaquim frequentava em vivo. Sabia que era um local aberto a todo tipo de conversas. Acabei por comprar um jornal desportivo - forma encontrada para meter conversa. Não me quis identificar como Inspector, aliás o meu cabelo pedia-me que fosse na condição de cliente. Em espera estavam dois homens barbudos de olhar oblíquo nas revistas de mesa. A tesoura do barbeio tiritava freneticamente com uma precisão cirúrgica que me fez arrepanhar as entranhas. Abri o meu jornal numa página incerta, comentei para um dos homens que a época tinha sido má para a equipa da casa. Retorquiram-me com um monossílabo desconhecido. Enterrei a cabeça no jornal e esperei pela minha vez.

Lembrei-me das primeiras vezes em que fui ao barbeiro, e do meu fascínio pelos fraquinhos de cor que costumavam pender perto do lavatório preto. Em casa do meu tio-avô, existia um velho cadeirão de barbeiro mesmo no centro do sótão. Batia-lhe então, um fino fio de luz saído das velhas telhas, que despertava nas pequenas partículas de pó um brilho indescritível.
Contavam-se histórias acerca daquele majestoso cadeirão de barbeiro - dizia-se que outrora um ministro lá tinha falecido com uma congestão. Um ministro importante? – perguntava eu em pequeno, com o espanto de quem descobriu um sexto continente. Uma pessoa importante morreu neste cadeirão, sussurrava eu enquanto brincava, e sentava-me nele com pose de ministro – também eu me sentia importante.
Sabia que nunca iria morrer naquele cadeirão, excluía do mundo aquela hipótese que, nunca passou pela cabeça do Ministro Importante ser local para pessoas importantes morrerem. Ao mesmo tempo, imaginava como seria a minha morte num cadeirão de barbeiro e, ao pensar nisto, estava a dizer ao meu destino que assim não morreria, porque nessa já tinha pensado eu!
A partir desse momento, tentei imaginar todas as formas possíveis de se morrer, principalmente as mais bizarras, porque tinha ficado com a ideia de que apenas morremos da forma que menos esperamos.
Será que Joaquim já teria pensado em morrer no quarto, com um tiro na cabeça vindo sabe-se lá de onde? Possivelmente não. Ouve certamente alguém que imaginou por ele. É essa pessoa que terei de algemar e prender. Ou não me chame Inspector.

Agora que me sento no cadeirão do barbeiro de Joaquim, sinto a maior segurança do mundo, sei que para mim este sempre será um local seguro.

- Oiçam-me esta! – disse o barbeiro num tom pardo para toda a sala ouvir. - O sr. Joaquim, não podia ter “ido” em melhor altura… Morreu sem pagar a tosquia do dia anterior. Deus perdoai-me! Mas esta, eu não lhe desculpo!

Senti-me tentado, a pagar a divida terrena que Joaquim tinha deixado. Mas os inspectores não pagam dívidas dos mortos, se quando, as fazem pagar.
Só então, sorri. Este episódio fazia do barbeiro a minha primeira suspeita neste caso!
Um barbeiro assassino? Sorri de novo, olhei-me no espelho. O corte de cabelo fizera-me mais novo.

domingo, fevereiro 06, 2005

23h29min.- uma janela mal fechada

O drama da vida. Não desacredito. Mas não me sei cobrir por essa manta de bolor feita. O não drama pela vida. A sua tragédia é um vaso que se parte no chão da minha cozinha, e o som dos talheres quando caem no chão; a frecha que se abre no tecto amarelo sob o qual adormeço. É a janela aberta de noite, e o frio que não me deixa fechá-la. São os chinelos alguns centímetros fora do alcance dos meus pés, quando saio da cama. São os quatro quadradinhos nas cruzadas do jornal, que não sei decifrar. É a rente memória que não permite lembrar o ano da morte do Poeta, ou o ano do Nobel de Alexandre Soljenitsine. É a noite passada em branco imaginando o mundo sem um "eu" que diga que existe; sem "A Educação Sentimental" de Gustave Flaubert; sem D. Sebastião ou sem Schumann que de certo dariam grandes amigos. É uma gota de café no colarinho da fresca camisa matinal. É o duvidar e destruir por princípio. São as sinfonias que de tão perfeitas se ocultam a si mesmas, e das quais não apreendo um terço das notas. São as conversas d´outro que por tão inúteis me fascinam ao ponto de as transcrever por inteiro. É a espera pelos conselhos do padre Damasos que saem da rádio à noite, e me preenchem o quarto de uma crença absoluta por tudo a que sou meramente espectador – esses arraiais proféticos de uma felicidade emprestada. É este o drama da vida tal como a conheço. Mas todo o drama é necessário. Quem seria eu, sem as blasfémias do padre Damasos? Ou sem as conversas curtas mas convincentes do outro que diz ser o eleito dos males do mundo. Ou sem a janela mal fechada pela noite?
caderno de apontamentos de Joaquim
Talvez se fechasses as janelas de noite, ninguém te tinha morto - pensou o Inspector enquanto lia as últimas linhas do velho caderno.